SOCIOLOGIA DO VIRTUAL: CASOS DE “INTERAÇÃO SOCIAL” REAL/VIRTUAL
Como é de conhecimento mediano, não vou me estender em detalhes sobre o que significa ou implica a chamada interação social. No entanto, cabe dizer para relembrar que, cientificamente ou no cotidiano, a interação marca níveis suportáveis (ou não) à convivência humana. Assim, como conceito chave ou, mais propriamente dizendo, como objeto da sociologia clássica, a interação pode ser verificada por ações/relações que nos põe diretamente em interface uns com os outros. A interação estaria presente diante de situações em que se pode verificar a ajuda mútua, aquele mínimo de solidariedade, a contribuição inicial para a sustentatibilidade da vida social.
Por outro lado, a interação não implica na obrigatoriedade dessa ocorrência, pois que pode ser entrecruzada pela própria violência (como sua maior forma de negação) ou variadas e múltiplas formas de negação, a partir, por exemplo, da negação de pretensões igualmente legítimas, mas ditadas em pólos opostos em virtude de seus interesses e do direito de agir legal/legítimo de seus pretendentes. Porém, mesmo aí, se por ventura tratássemos de um embate político ou ideológico em que grupos, classes, indivíduos estão em posições opostas, conflituosas, antagônicas, contraditórias e, isto pode indicar que ainda não tenha ocorrido a subsunção de uma das partes ou (o que dá no mesmo) que ali impere uma determinada perspectiva hegemônica.
Hegemonia
O termo hegemonia deriva do grego eghestai, que significa “conduzir”, “ser guia”, “ser líder”, ou também do verbo eghemoneuo, como “condução”, e do qual deriva “estar à frente”, “comandar”. Muito depois é que foi apropriado por Lênin (1905) e subseqüentemente por Gramsci. O emprego do termo, portanto, pode seguir a lição grega: “dar boa direção ao que é público”.
Lênin [...] insiste sobre seu aspecto puramente político: o problema essencial para ele é a derrubada, pela violência, do aparelho de Estado [...] Gramsci, ao contrário, situa o terreno essencial da luta contra a classe dirigente na sociedade civil: o grupo que a controla é hegemônico e a conquista da sociedade política coroa essa hegemonia, estendendo-a ao conjunto do Estado (sociedade civil mais sociedade política) [...] a concepção gramscista da “sociedade regula”, a condenação a qualquer “estadolatria” mostra o caráter hegemonista da concepção gramscista da ditadura do proletariado: esta é concebida como a direção ideológica (hegemonia, sociedade civil) e a dominação político-militar (ditadura, sociedade política) da classe operária (Portelli, 1977, p. 65).
Pois bem, ainda para melhor fixar os termos (e as realidades pessoais e políticas) que podem embotar a interação social, procuramos definir três termos, sobretudo, para que o leitor veja por si mesmo se/quando/quanto estão (ou não) em choque, confronto com os traços marcados na troca de mensagem individual que se verá logo depois.
Contradição: Luta de Classes (os opostos se aniquilam)
Oposição: Troca de Partidos, comando (os opostos se alternam)
Antagonismo: “a questão do gênero” (os opostos de atraem)
Assim, a seguir, passemos às críticas, aos elogios e ao engodo virtual.
Críticas, Elogios e Engodo Virtual
Os relatos não seguem uma ordem cronológica, não são das mesmas pessoas (pertencem a cursos distintos), retratam ocorrências demarcadas em anos díspares, porém, foram todas enviadas no final de 2008. Sua organização aqui tem apenas o intuito de demarcar mais claramente o que pode ou não ser (realmente) pedagógico nesta fruição do direito de comunicação, como nunca se viu provocada pela troca de e-mail:
Olá Professor Vinício!
Gostaria de desejar a você e a seus familiares um Feliz Natal, cheio de bênçãos e alegrias.
Agradeço por todas as palavras amigas, pela compreensão em relação a minhas dificuldades, pelo acréscimo (não só quanto ao conteúdo didático) na construção de uma Kelly melhor.
Que Deus o ilumine, sempre, e lhe presenteie mais e mais com a sensibilidade com que você enxerga as pessoas.
Abraços,
Kelly
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Olá Professor Vinício!!
Como vai??....qto tempo!!!
Bom, nem sei se vai lembrar de mim, mas comecei os meus primeiros estudos para fazer minha monografia com vc, logo no segundo ano em 2005, fiz alguns fichamentos e pesquisas até o Sr me dar a idéia de falar sobre a família do preso (ressocialização), não sei se lembra. Pois bem, quando estava no quarto ano e comecei a fazer meu projeto o Sr. não estava mais lecionando na fundação e tive que continuar com outro orientador, mas seus ensinamentos no início para mim e principalmente sua idéia de falar sobre a família do preso, foi de fundamental importância na confecção do meu trabalho, sem as quais seria difícil continuar.
Continuei realizando minhas pesquisas, fiz várias entrevistas de campo, conversei com muita gente, colhi muitos dados e consegui construir meu trabalho. Dia 30 de outubro de 2008, defendi minha monografia e tirei 10, com muitos elogios pela idéia de escrever sobre esse tema, que pouquíssimas pessoas escrevem, e pela pesquisa que fiz.
Desta forma, vim por meio deste e-mail agradecê-lo pelos primeiros ensinamentos prestados e que me foram de fundamental importância na minha pesquisa. Gostaria ainda de dizer que os elogios que me foram prestados em relação a meu tema, foram plenamente agradecidos, tendo seu nome como referência.
Minhas aulas terminaram e dia 29 de outubro será minha colação de grau, seus ensinamentos ficarão por toda a vida.
Mais uma vez, obrigada por tudo e aproveitando, lhe desejo um ótimo natal e ano novo!!
Sem mais, agradeço pela atenção.
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Olá!
Que bom que gostou professor!!
Fico lisonjeada pelos elogios, não poderia deixar de lhe agradecer, só não escrevi antes devido a minha correria com o final de curso e as preparações para a OAB.
Minha monografia será publicada no site da faculdade em breve, e estou escrevendo um artigo para publicação também.
Pretendo fazer mestrado, mas ainda estou vendo certinho os lugares, gostaria de continuar na linha de pesquisa da minha monografia, pois adorei escrever sobre o assunto.
Quero ser uma professora assim como o Sr!!....hahaha
E o Sr, como está?...Está lecionando onde?
Mantenha contato professor!!
Um grande abraço!
Luciana
O elogio encanta a todos e quando é sincero deve encantar mesmo, porque não mente, não há auto-engano e nem serve de moeda de troca — é pura e simplesmente um gesto de afeto dirigido a quem se gosta e respeita. Não pode haver mal nisso.
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Crítica Madura
Agora vejamos um ótimo exemplo do que denominei de crítica adulta:
Olá Prof. Vinício,
Como lhe prometi, envio minha avaliação de sua disciplina:
Conteúdo das aulas: o conteúdo programático de Sociologia foi bem abordado.
Enviar os resumos antes das aulas ajuda muito, mas confesso que em alguns desses
tive dificuldade de interpretação.
Avaliações: entendo que o senhor optou por um método contínuo de avaliação, não
a princípio não seria o tradicional, depois passou a ser, e mais resenhas e
trabalhos. Mas prefiro quando as avaliações são já pré-estabelecidas no início
do semestre, fazendo com que nos programemos melhor a fim de atender a todos os
trabalhos de todas as disciplinas com o devido tempo, organização e dedicação
que exigem. As vezes uma semana pode ser um tempo hábil, mas quando estamos com
mais 2 trabalhos para mesma semana, nenhum desses rende o que deveria.
Aulas: gostava da maneira em que o senhor procurava o diálogo, sempre nos
questionando e trazendo exercícios.
Boas Férias, Bom natal e excelente ano novo!!
Att.
Laís
Como bem se pode ver, uma crítica madura não é uma mera crítica dura, que nos quebra; ao contrário, deve nos emendar para melhor. Por isso, penso que cabe anexar minha resposta, igualmente enviada por e-mail:
Oi Laís - de fato vc cumpriu a palavra mesmo.
Achei que ia se esquecer, por causa das tarefas todas e do fim de ano. Mas,
obrigado por sua atenção em responder. Creio que vc pegou os pontos
principais, eu não diria melhor.
A única explicação que devo é quanto às provas - não ia fazer nenhuma,
inicialmente, mas aí percebi que ninguém estava lendo os textos. Então, foi
o último recurso. E para facilitar, encomendei os fichamentos sobre os
textos das provas: um tipo dois em um.
Mas, vc está certa sim.
Também lhe desejo um ótimo final de ano e que 2009 seja muito bom para todos nós.
Se precisar, estou por aqui, ok?
Grande abraço,
Vinício
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A Picaretagem
Por outro lado, há a picaretagem, a eterna tentativa de se ludibriar e depois tentar ludibriar aos demais. Como se diz, a pior mentira é aquela em que acreditamos antes dos outros...
Talvez o mais grave no caso relatado é o fato de que a aluna ainda tentou envolver e manipular outros dois professores e que, não fosse pelo envio do e-mail a mim, nem de longe iriam desconfiar da história tramada. Vamos ver:
Olá Professor, não sei se o senhor lembra de mim, mas eu sou a Tatiane M. sua aluna do 4º. Ano de R.I.. Falei com o senhor no último dia de aula sobre a possibilidade de fazer uma outra atividade para que pudesse obter a nota de sua matéria, e o senhor me disse que falaria com o Marcelo para que não tomasse uma decisão sozinho, pelo fato de não conhecer a nossa sala.
Eu falei com o Marcelo e também com o Prof. B. e eles me falaram sobre a possibilidade de o senhor me dar uma prova de recuperação ainda esse ano. Falei com o B. na quarta feira e ele me disse, pra eu conversar com o senhor e tentar marcar uma outra atividade, um trabalho, uma prova, para ser feita na semana que vem, ele também me disse que o senhor tivesse poderia ligar pra falar com ele para conversar sobre o assunto.
Tive que fazer algumas provas pra trainee, passei por alguns problemas pessoais, como o assalto que contei pra o senhor (que me prejudicou na monografia também), e isso afetou o meu aproveitamento na sua matéria. Gostaria de me desculpar pelo fato de querer resolver isso agora, mas queria muito professor, que o senhor levasse em consideração o fato de nunca nenhum professor ter me deixado com dp, e eu não ter tido problemas dessa espécie com outros professores.
Queria te pedir para que o senhor pensasse a respeito, visto que, só estou dependendo da sua matéria pra poder colar grau, e mais uma vez gostaria de me desculpar e te dizer que não quis em nenhum momento lhe ofender ou subestimar o senhor ou sua matéria.
Desde já agradeço a compreensão.
Tatiane
Em seguida, enviei mensagem ao Prof. Marcelo, na verdade, para saber se me daria uma luz para ver o fim do túnel. Sua resposta foi o espanto:
Vinício eu não estou sabendo disso não ... ela conversou comigo e eu disse que ela nem fez o trabalho e, portanto, o natural seria a reprovação ... o mesmo para o Vitor ... agora se o B. disse algo nesse sentido eu já não sei ... você acha que eu devo perguntar ao B. sobre o assunto?
Grande abraço,
Marcelo.
Ao que respondi que achava melhor perguntar ao terceiro envolvido se sabia disso tudo e qual sua posição. O prof. Marcelo foi novamente enfático em demonstrar o quanto desabonava tais práticas:
Vinício a única verdade nesse email dela é que eu disse que poderia ser feito algo se ela tivesse nota para ficar de recuperação e passar por todo o processo. mas, todos nós sabíamos que ela não tinha nota. portanto, não havia muito a fazer ...
é isso aí que você disse: depois do leite derramado inventam histórias para passar de qualquer modo ...
vou perguntar para o B. e ver se ele disse algo ... assim que obtiver resposta eu lhe aviso
ok!
Grande abraço,
Marcelo.
Por fim, soube que nem a aluna e nem seu colega (Vitor) haviam concluído o trabalho de final de curso. Soube que ainda tentaram jogar de modo semelhante com outro(a) professor(a), dessa vez por insuficiência de notas. Diziam que se eu aprovasse, esta pessoa aprovaria e, vice-versa, repetiam a mesma ladainha para o outro lado.
Bibliografia
PORTELLI, Hugues. Gramsci e o bloco histórico. Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1977.
VINÍCIO CARRILHO MARTINEZ
Professor Substituto na UNESP/Marília, tem graduação em Direito (1988) e em Ciências Sociais: UNESP/Marília (1989); mestrado em Educação pela UNESP/Marília (1996); doutorado em Educação pela FEUSP (2001); mestrado em direito (2005); e é doutorando em Ciências Sociais, UNESP/Marília (2006 - ).
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